"Esquerda x Direita / Conservador x Progressista" : uma discussão que não agrega
A discussão no campo político envolvendo as nomenclaturas “esquerda x direita” e “conservador x progressista” precisa ser acompanhada de reflexões mais profundas. Para ilustrar melhor essa questão, podemos resgatar o exemplo do arranjo social existente na França antes de 1789.
Nos três séculos anteriores à
Revolução Francesa (1789), a França foi governada por uma monarquia
absolutista. A sociedade francesa era dividida em três segmentos, denominados
estados. O Primeiro Estado era constituído pelo clero; o Segundo Estado, pela
aristocracia e pela nobreza; e o Terceiro Estado reunia a parcela restante da
população.
Os dois primeiros Estados
desfrutavam de privilégios que não eram concedidos ao restante da sociedade. Em
geral, estavam isentos de impostos, tinham amplo acesso à propriedade e
usufruíam de condições econômicas e sociais extremamente favoráveis, enquanto
grande parte do Terceiro Estado vivia em condições de profunda pobreza.
Em síntese, leis e
instituições diferenciadas garantiam não apenas uma posição econômica
imensamente vantajosa para a nobreza e o clero, mas também lhes conferiam
significativo poder político. Esse poder político contribuía para a manutenção
de instituições extrativistas, que, por sua vez, sustentavam instituições
econômicas igualmente excludentes e reproduziam as condições do arranjo social
vigente.
A mudança para um sistema
baseado em instituições políticas e econômicas mais inclusivas era bloqueada
pela estrutura de poder existente. Indivíduos e empreendedores oriundos do
Terceiro Estado encontravam enormes dificuldades para ascender social e
economicamente, mesmo quando demonstravam talento, capacidade e iniciativa. A
justificativa recorrente era a necessidade de preservar a estabilidade do
sistema e evitar mudanças que pudessem ameaçar a ordem estabelecida.
Desse exemplo histórico
podemos extrair uma conclusão importante: aqueles que concentram poder e dele
se beneficiam tendem a resistir às mudanças que possam ameaçar seu status.
Nesse sentido, o conservadorismo não deve ser compreendido apenas como uma
posição ideológica abstrata, mas também como uma atitude diante da
possibilidade de mudança institucional. Quem se beneficia de instituições
extrativistas tende, naturalmente, a defendê-las e a resistir à sua
transformação.
Quanto às denominações “esquerda” e “direita”,
são, em grande medida, convenções políticas e históricas. Seu significado pode
mudar conforme o período, o país e as circunstâncias. Por isso, mais importante
do que a classificação ideológica é compreender quais instituições estão sendo
defendidas, quem se beneficia delas e, principalmente, se contribuem para uma
sociedade mais inclusiva, dinâmica e capaz de ampliar as oportunidades
econômicas e sociais.
Comentários
Postar um comentário